Superação - Caboclo Quebra Ossos

 

Salve as forças de vocês meus filhos.

Conto uma das minhas histórias encarnatórias onde cruzo caminhos com a minha médium (Maha Unm’kper) e com seu guia Cacique Pena Branca. Como não é só minha para compartilhar, conto-lhes minha visão desta vida.

    Não sei dizer em anos exatamente, afinal nossa contagem do tempo era diferente, mas os posiciono no tempo como bem antes de Cristo.

    Nasci com uma má formação nos ossos de minhas pernas que sempre me mantinham em dor, principalmente quando eu decidia ser criança como as outras, brincar e viver.

    Meus pais, que tiveram apenas a mim, estiveram em constante preocupação, pois lhes digo que defeitos físicos neste momento da Terra era algo muito raro e quando acontecia, a criança era levada para ser morta.

    Na aldeia que cresci, às escondidas, meu pai me levou ao Pajé, líder espiritual da tribo, para verificar o que poderia ser feito por mim.

    Eu estava com meus 4 a 5 anos nesta época e eu com muita dificuldade ficava de pé sem auxílio, mas não conseguia andar sem me apoiar e sem que sentisse muita dor. O Pajé tentou várias das coisas que conhecia e minha dor ao ficar de pé e tentar andar daquela forma, diminuiu consideravelmente.

    

    No ano seguinte, tivemos uns dos invernos mais rigorosos até o momento da história que os anciãos conheciam, e eu urrava de dor durante as noites, pois o frio penetrava nos meus ossos me fazendo pensar que se cortassem minhas pernas fora ou se eu apenas morresse, tudo seria melhor. Diversas vezes o pajé foi até nossa pequena casa e ministrava ervas para que eu dormisse e para aliviar as dores. 

    Em uma de suas visitas durante o inverno, avisou meu pai que seria o momento de considerar acabar com meu sofrimento e sugeriu que se esse não fosse o caso, viajasse para as outras terras e aldeias antes que notassem a condição do filho e caso algum outro curandeiro pudesse ajudar.

    Neste ponto minha mãe já estava extremamente desgostosa e triste com toda a situação e convenceu meu pai de que viajar em uma “carroça” quando o final do inverno estivesse próximo seria a melhor opção.

    

    Foi assim que passamos por mais de 5 tribos nesta jornada, onde fui terminar minhas viagens na sexta aldeia.


    Tanto meu pai quanto minha mãe já estavam exauridos destas viagens e decidiram que a sexta aldeia seria a última. Por lá se juntariam à tribo e deixariam que o Ser Maior decidisse meu destino. 

    

    Saindo da quinta aldeia, um dos guardiões da porteira nos disse que na aldeia a sudoeste da que estávamos eram as melhores chances do menino, pois ouvia-se boatos e rumores que “A Águia Branca e o Velho, Tigre das Montanhas” tinham capacidades curandeiras que outros pajés não conheciam.


    Partimos então em direção a tal aldeia.


    Vejam que nesta época, todos os viajantes eram muito bem acolhidos onde chegavam, pois acreditava-se que o Ser Maior seria um viajante e nunca se saberia sua verdadeira identidade até que ele se revelasse, se assim o fizesse, traria conhecimento ancião dos mundos anteriores para as tribos. E Ele só o faria se fosse tratado da mesma forma que trataria a todos, com carinho, amor e respeito.  Então, todos os clãs, aldeias, tribos, acabavam por viver em plena harmonia umas com as outras. Nós acreditávamos em diversos seres que hoje vocês colocariam o nome de deuses, mas para nós o sagrado estava em tudo, e cada aspecto da natureza era habitado e protegido por seres diferentes. Pelo divino estar em tudo, não tínhamos crença que um objeto apenas era sagrado.


    Chegamos à sexta aldeia procurando pelos nomes que nos foram fornecidos, e depois de uma boa noite de sono e ótima refeição, partimos por uma trilha floresta adentro em direção a cabana que nos descreveram. Como minha situação de andar era complicada, meu pai me carregou pelo caminho todo, tendo que realizar diversas paradas de descanso.

A este momento do tempo, eu já estava com 9 anos de idade e ficar de pé me doía muito, pois estava em fase de crescimento somada a má formação.


    Após cerca de quatro horas de caminhada com meu pai me carregando, avistamos entre as árvores uma cabana construída de toras de madeira escura. Em sua lateral havia duas pequenas plantações e a frente da singela casa, uma fogueira bem estruturada com pedras grandes.  Próximo eu podia escutar sons de água corrente do que parecia ser um rio.


    Minha mãe foi na frente enquanto meu pai se recuperava para me carregar mais alguns metros.

    

    Encontramos a Águia Branca e o Velho Tigre da Montanha sentados à frente da fogueira.

    

    Explicaram o que acontecia e ambos imediatamente se levantaram e indicaram que carregassem o menino para dentro. Deitaram-me em uma cama e a mulher (Águia Branca)  ministrou algo para que eu relaxasse e dormisse.


    Quando acordei, eu não escutava nem via mais meus pais, apenas os dois curandeiros.

    Chamei-os e disseram que os pais foram se acomodar com suas novas tarefas na aldeia e que ambos iriam cuidar de sua condição.


    Conversaram comigo por bastante tempo, explicando o que seria feito e que seria extremamente doloroso o processo. Deixaram-me com meus pensamentos por três dias para que eu decidisse se preferiria morrer ou tentar.

    Digo-lhes que foram três dias assombrosos que passaram a passos pequenos, com certeza parecendo sete.

    Ao final do tempo estabelecido por eles, os chamei e informei que sim, gostaria que tentassem o que pudessem, mesmo se eu morresse no processo, gostaria então de morrer assim.


    Assim o fizeram!

    Passaram o resto do dia preparando como fariam e o que fariam.


    Foram em torno de 8 a 12 meses que passei ali com eles.

    

    A dor excruciante de terem quebrado todos os ossos de minhas pernas em pedaços para que pudessem corrigir e colocar no lugar, é algo inexpressivo.


    A primeira parte foi a pior, a quebração de ossos. Mesmo tendo recebido o máximo possível de anestesia, era amedrontador me perder na loucura da dor, fechar os olhos e escutar aquele som incessante de rachadura e deslocamento.

    A segunda parte envolveu a manutenção do reposicionamento e como meu corpo estava remendando as remodelações. Aqui os rituais começavam com mais intensidade e perduraram até o fim da terceira parte, que foi a reabilitação para andar.

    Em dois anos eu estava andando “normalmente”, digo normalmente pois perto das minhas condições iniciais, apenas ter ficado coxo, é sim normal. Ainda comparecia à cabana para verificações da cicatrização.


    Eu pude viver minha juventude muito bem, como integrante. Realizava tarefas na tribo e cumpria meu papel.

    Com meus 16 - 17 anos fui perdendo o interesse nas tarefas básicas que executava, principalmente da caça, e me pegava com frequência relembrando como me sentia bem e como sentia tudo diferente nos rituais. Me perguntava o que estava sendo feito e porque.

    Decidi então retornar a cabana, 7 anos depois do meu tratamento, para encontrar o Velho apenas aproveitando o resto de sua vida, de forma saudável, e a mulher havia assumido o papel principal de atuação, mas ainda abaixo dele na hierarquia. 


    Ele já havia ensinado tudo a ela e por isso, apenas se sentava para observar, ajudava a abastecer os estoques de elementos e cuidar das duas pequenas plantações que se mantinham.     A Águia Branca então me avistou observando e convidou que se sentasse junto a eles para o chá que o Velho havia escolhido.

    A mulher, Águia Branca, esperou junto com o velho que eu anunciasse o motivo da minha visita, afinal aparentava um jovem saudável.

    

    Comecei relembrando como havia sido a experiência com eles e os agradeci imensamente e de todo meu coração. Eu podia sentir a chama em meu peito vibrar forte enquanto os agradecia.

    Segui contando a eles o quanto sentia falta de experienciar todos os rituais, as conexões e a energia que era emanada e por isso, os pedi que me ensinassem.


    Entreolharam-se e sorriram. O Velho e a Águia se comunicavam telepaticamente ao que percebi, pois pareciam conversar sobre o assunto sem emitir qualquer som. Por fim, o Velho disse que eu deveria retornar 5 vezes por lua à cabana.


    Retornei todas as vezes que me solicitaram, e percebi que aprendi muito observando a Lua e contando as vezes que ia até lá. Notava suas nuances, suas mudanças e contava aos dois.

    Permaneci nesta tarefa por muitas luas, mas ao final da minha vida soube que era um teste.

    Com o tempo, fui me provando útil, responsável e me mostrando digno de aprender os mistérios que ambos guardavam.

    A Águia Branca me tomou como aprendiz e aos poucos iniciou o treinamento de uma vida inteira comigo.


    Dez anos depois, seu pai, o Velho Tigre da Montanha fez sua passagem e ela o honrou de todas as maneiras e respeitos que merecia. Assim se tornou Maha Unm’kper e com ela tive a honra de aprender muito do que sei hoje.

     


    Houve o dia que ela se tornou a Velha Águia e o dia que fez sua passagem, me deixando em seu lugar. 


    Como exemplo de tudo que me ensinaram, honrei-a e respeitei-a nos nossos costumes e rituais e agradeci aos dois, mirando os céus, desejando-lhes uma linda caminhada onde quer que estivessem e que recebessem a benção da natureza e do Ser Maior.



Meu relato de nossa jornada,

Caboclo Feiticeiro, Quebra Ossos.


Que pai Obaluaê possa abençoar as caminhadas de evolução de todos.



Axé.

Victoria



Fonte da imagem: Google

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